quarta-feira, 25 de junho de 2014

O que os homens falam?

Elenco estelar e diálogos bem construídos fazem desse longa espanhol uma comédia irônica sobre os medos e fracassos de oito homens em plena crise da meia idade. Sem machismos e sem idealizações, o filme mostra nua e cruamente que eles têm um longo caminho a trilhar até descobrir como lidar com o perfil independente da mulher







O sexto longa de Cesc Gay como diretor está dando o que falar. Ou melhor, o que não falar.  A comédia romântica espanhola O Que Os Homens Falam chega às telonas brasileiras com uma peculiaridade: as salas lotadas de mulheres. Todas elas ávidas por descobrir, enfim, o que eles falam. Mas, infelizmente, não será dessa vez. O título em português, mais vendável que o original Una Pistola em Cada Mano, engana a torcida. A narrativa, construída pelos dramas de cada um dos oito personagens masculinos, reunidos em seis pequenas histórias, mostram muito mais o que eles omitem – para si mesmos e para o mundo - do que propriamente o que verbalizam.

Fernandez e Sbaraglia: um falido, o outro com crises de pânico
A boa do filme está no elenco. Cesc Gay reuniu grandes nomes do cinema espanhol e argentino, como Javier Cámara, Ricardo Darín, Eduardo Noriega e Eduard Fernández.  Darín aliás, que posa de protagonista nos cartazes de divulgação do filme, não é mais e nem menos que os seus companheiros de tela. Não há um personagem principal, todos tem seu peso bem distribuído. Pode-se dizer que O que os Homens Falam é uma comédia inteligente sobre os anseios e medos de homens na crise da chamada meia-idade, que há muito perderam o viço da juventude e experimentam, cada um a seu modo, o gosto amargo de situações mal resolvidas. Tem o drama do marido traído, do que está falido e volta a morar com a mãe aos 46 anos de idade, do que ficou broxa, do desesperado para voltar com a ex-mulher que ele traiu, do casado com filho pequeno que quer trair a mulher. Aliás, traição é um tema recorrente, que permeia a maioria das histórias, mas sem apoiar-se num tom moralista, felizmente. Diferentes ângulos do tema são revelados na fala dos personagens e suas relações mais e menos complexas. Amigos, colegas de trabalho, namorados, amantes casuais: todos estão sujeitos à infidelidade.



A graça está na ironia

 Tosar e Darín numa das cenas-síntese do filme, conversa sobre traição
Se numa comédia romântica americana o riso fácil e o apaixonado beijo final são figurinhas carimbadas e obrigatórias, nessa produção espanhola é melhor não esperar nem por uma coisa, nem por outra. A ironia bem construída nos diálogos é a principal responsável por ensaiar no espectador um riso aqui, outro ali adiante. Nada debochado, nada gargalhado. A graça  sutil é altamente irônica, como quem ri das suas próprias fraquezas e vulnerabilidades. A narrativa sensível e franca mostra que o cômico é patético e que os homens, antes dominadores, perderam as próprias amarras e estão à deriva.

O enredo do filme é contemporâneo, demasiadamente realista. E é essa aproximação com a vida real que traz a identificação, o laço para nos manter atentos até o fim às histórias que eles nos contam. Difícil é assistir ao filme e não ver ali alguém que conhecemos: um primo, um amigo, um ex-marido.

O longa foi rodado em Barcelona, mas é difícil num primeiro momento descobrir a cidade por trás das histórias. Ou a força dos diálogos rouba a atenção do espectador, ou a ideia de Cesc Gay foi mesmo a de deixar a sua cidade natal oculta. A maioria das cenas são internas: hall de elevadores, apartamentos, escritório e uma loja de vinho. A exceção fica por conta de uma praça onde Darín senta ao lado de Luis Tosar para descobrir o amante da esposa, que mora num dos prédios vizinhos. Há também uma sequência de cenas noturnas de uma Barcelona chuvosa vista pela janela do carro onde ocorre um dos diálogos.

As imagens-síntese de O que os Homens Falam monstram sempre um diálogo truncado, provocado pela complexidade das histórias de cada um e da dificuldade de se expor. Às vezes há um silêncio constrangedor e as duplas optam por conversar amenidades e evitar tratar o que realmente os aflige. Ou seja, o tema do filme nada mais é do que a  dificuldade que os homens tem de falar de si mesmos.

À exceção do pouco criativo final do filme, pode-se dizer que o longa de Cesc Gay é uma boa pedida, com bons diálogos e bons atores. Uma pena é que eles não falam tudo o que nós mulheres há séculos tentamos descobrir.

Veja a coluna na íntegra no Jornal Imagem da Ilha: http://www.imagemdailha.com.br/noticias/colunista/karin-verzbickas.html



terça-feira, 17 de junho de 2014

Banca Del Vino

Esse post veio da Itália, colaboração do jornalista, marido e quasi un italiano vero, Róger Bitencourt. Vejam que interessante: 

Uma caixa forte, instalada num castelo milenar, para preservar a memória dos grandes rótulos italianos
O interior da caixa forte: 100 mil garrafas












Os italianos são apaixonados pelo vinho. Mais do que isso, tem no vinho uma cultura. Produzem vinhos de mais de 1.500 diferentes variedades de uvas e se orgulham de ter os melhores vinhos do mundo (no que são contestados pelos franceses). Para preservar a memória histórica do vinho italiano, existe em Pollenzo, na região de Langhe, a  Banca del Vino. A instituição foi criada em 201 para preservar os grandes rótulos italianos e guarda hoje cerca de 100 mil garrafas daqueles que são considerados os melhores vinhos italianos. 



Sala de degustação e cursos
São 900 tipos diferentes de vinho de cerca de 300 “cantinas” de todas as regiões da Itália. Uma parte dessa garrafas  (40%) é utilizada para venda e desgutações dentro da cava que abriga a Banca e o restante fica salvo no banco para sempre ou até quando se decidir abrir para degustar, não antes de um prazo de 20 anos. 

Alguns são verdadeira preciosidades e ficam na caixa forte da Banca, instalada em um belíssimo castelo milenar. As visitas são guiadas, enquanto você degusta alguma das preciosidades da Banca, que também conta com espaço especial para cursos de degustação acompanhada por renomados sommeliers e laboratórios temáticos.  

Róger Bitencourt exercendo os ossos do ofício
A Banca é um lugar único no mundo, onde se pode conhecer a “Itália dos grandes vinhos”. Junto a Banca funciona um restaurante aberto ao público e a Universidades de Ciências Gastronômicas da Itália. 


Conheça mais sobre a Banca no site www.bancadelvino.it.



quinta-feira, 5 de junho de 2014

The Family Coffee Shop, a boa surpresa da semana!



O lugar é bem pequeno e super charmoso, cheio de pôsteres de grandes ídolos do cinema, das artes plásticas e da música. O lado de lá do balcão abriga máquinas de café expresso, chás orientais e xícaras que, só pelo design e procedências diversas, já valem a visita. O The Family Coffee Shop, no bairro Santa Mônica, em Floripa, que já era um point consagrado daqueles que curtem "espressos" de alta qualidade, agora surpreende com seus almoços executivos. 


Regular water: cortesia sustentável

Estive lá na terça-feira, por indicação de uma colega de trabalho na Fábrica de Comunicação. Nesse dia o cardápio era vegano (nem sempre é) e já adorei as boas vindas: uma garrafa de vidro old fashioned, com água filtrada e gelada, oferecida como cortesia. É a chamada regular water, ou tap water, tão popular nas mesas dos restaurantes de NY e de outras grandes cidades nos EUA e na Europa. Sustentável e simpático.





pétalas gratinadas de batata
caponata de beterraba
salada com mostarda e flocos de chia

Mas o melhor veio depois. De entrada, folhas verdes (dois tipos de alface, rúcula e espinafre) com molho de mostarda e flocos de chia e gergelim. Prato principal: um gratinado de pétalas de batatas com recheio de champignon Paris fresco, acompanhado de uma caponata de beterraba muito saborosa. Para fechar, um café longo tirado por quem entende do assunto. E precisa mais? Anota aí o endereço: Madre Benvenuta, 1157. Almoço: R$ 20,00, de segunda a sexta-feira.
café expresso desenhado

  

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Na próxima viagem, que tal trocar o tradicional hotel por um apê, um castelo, uma casa na árvore...

Nada contra turistar. Adoro ser turista, comprar guias, visitar lugares super indicados e tudo o mais. Na verdade eu sou turista até mesmo na cidade que vivo, Florianópolis. Mas confesso que tenho buscado nos últimos tempos uma forma diferente de enxergar os lugares por aí. Principalmente quando já não é a primeira vez que visito. E uma das formas de tentar mergulhar na cultura local e viver como um nativo passa pelo tipo de estadia escolhida. Lá em casa, temos optado com frequência por alugar um apartamento em detrimento do habitual hotel.  E essa troca sempre traz vivências incríveis. Você ganha vizinhos de verdade que podem render dicas diferenciadas de passeio, você compra pão na padaria e descobre o jeito de viver e de ser das pessoas daquele bairro, eventualmente você cozinha em casa e descobre a cultura local, o legume que está na época, tenta reproduzir uma boa experiência gastronômica, testa equipamentos e eletroportáteis que não existem onde você mora.

Le Marais, bairro para viver alguns dias como um parisiense
Em Paris, na penúltima vez, fizemos isso. Família toda e mais uma amiga resolvemos alugar um apartamento no bairro do Marais e viver como parisienses por uma semana. Funcionou muito bem. O lugar era charmoso, tinha tudo o que precisávamos e sem ostentação e, tirando o fato de ser no quinto andar de um prédio sem elevador, era muito confortável. Ali cozinhamos, assistimos tv local, interagimos com a vizinhança, convidamos amigos para um esquenta em casa, alugamos bikes e vivemos o bairro por inteiro. A sensação de ser um morador da cidade é muito boa e nos faz pensar, comparar, e até ver que muitas coisas que reclamamos no Brasil não fazem o menor sentido.


O legal e seguro é buscar uma locadora confiável, que te dê garantias e que tenha atenção principalmente com relação à limpeza pré-ocupação e um esquema confiável de entrega e devolução das chaves. Nossas experiências foram sempre com a Airbnb. Esses caras têm nada menos que 350 mil anfitriões em 192 países do mundo. E as ofertas vão de pequenos studios a apartamentos de luxo, passando por castelos e até casas na árvore. Tem de tudo.


sala da houseboat que alugamos em Amsterdã
Em Amsterdã, por exemplo, ficamos no ano passado numa casa-barco sensacional. Pela diária de um Ibis, nos hospedamos numa embarcação histórica que serviu a primeira grande guerra, com mais de 150m2 de área interna, totalmente reformado, móveis super design, cozinha equipadíssima, até lareira na sala tinha. E de brinde uma vista permanente da baía urbana da velha Amsterdã.



Então, não vale se arriscar na próxima viagem?


CONHEÇA ALGUNS DOS SITES MAIS POPULARES PARA ALUGUEL DE TEMPORADA

O Airbnb está presente em quase 200 países e tem como principais destinos cidades como Nova York, Paris e Rio de Janeiro. Há apartamentos, casas, quartos privados e até compartilhadoswww.airbnb.com
O AlugueTemporada existe desde 2001 e se especializou no aluguel de imóveis por temporada dentro do Brasil. Em 2010, o site foi comprado pela rede internacional HomeAway, que incluiu a oferta de propriedades em outros paíseswww.aluguetemporada.com.br
O BahiaHomes trabalha com aluguel por temporada e venda de casas de alto padrão na Bahia. O valor cobrado inclui serviços de arrumadeira e caseiro e ainda há a opção de contratar massagista e babáwww.bahiahomes.com.br
O Homelidays tem aproximadamente 75 mil acomodações distribuídas por 100 países, mas a maior oferta está mesmo na Europa, sobretudo França e Reino Unidowww.homelidays.com
No QuickHome é possível alugar por temporada mas também fazer a troca de casas. Há opções de imóveis luxuosos e mais simples no Brasil e no exteriorwww.quickhome.com
O Welcome2BA oferece, além do aluguel de apartamentos mobiliados em Buenos Aires, o serviço de traslado do aeroporto até o imóvel, além de passeios turísticoswww.welcome2ba.com

sábado, 24 de maio de 2014

Woody Allen e John Turturro retomam parceria em "Amante à Domicílio"

"Amante à Domicílio", a estreia dessa semana, tem a direção de John Turturro, que além de ser o protagonista, assina também o roteiro. Mas é Woody Allen quem imprime todo o seu estilo. Apesar de não dividir a direção com Turturro e de não ter contribuído para a construção da história, a volta de Allen às telonas na impagável pele de um "livreiro-cafetão" foi suficiente para dar sua cara à obra. Some-se a isso algumas peculiaridades recorrentes nos filmes que levam seu carimbo: a história se passa em Nova York e a trilha traz algumas deliciosas faixas de jazz instrumental, além de uma música em italiano na voz doce e envolvente de Vanessa Paradis (ouça aqui)







A comédia vale quanto custa: há cenas estupidamente engraçadas como quando Murray (Woody Allen), um livreiro à beira da falência, utiliza de todos os argumentos para convencer Fioravante (John Turturro), funcionário de uma floricultura em NY, de que ele é sexy e que deveria aceitar a proposta de tornar-se um amante à domicílio. E aí se arma a coisa toda: Fioravante, que não é do ramo, não é um homem bonito e é pobre, será agenciado por Murray, um intelectual igualmente pobre e falido, para transar com a sensualíssima e inteiraça Sharon Stone, a doutora Parker. E eles ainda vão ganhar muito dinheiro por isso. Tudo começa quando a médica dermatologista de Murray pede a indicação de um amante a domicílio para poder trair o marido, um esportista que viaja muito e não lhe dá atenção, e também para depois fazer um mènage a trois com sua melhor amiga, mais nova, sexy e milionária que ela, vivida por Sofia Vergara.


Os negócios aumentam, Fioravante passa a atender várias clientes, até que entra em cena a viúva judia Avigal, na pele de Vanessa Paradis (a mesma que canta o jazz italiano marcante da trilha). E a partir desse novo componente, evidencia-se mais uma obstinação de Allen, a crítica nem sempre sutil à sua própria origem, a comunidade judaica. Num tribunal de judeus ortodoxos é mostrada toda a opressão da mulher em uma cultura altamente machista. Em outra ponta, mostra-se toda a solidão, a falta de carinho e de atenção das mulheres que buscam o amante profissional. Mas em algum momento, o filme perde a força. Não perde a graça e nem o talento da dupla enfraquece, mas a história que começa com um argumento forte parece não se desenvolver com a grandeza anunciada. O que fica ao final, além da boa trilha e das risadas frouxas, é a certeza de que todos nós, homens ou mulheres, precisamos de contato e de carinho.
Assista aqui ao trailler de "Amante à Domicílio"



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Ora, ovas!

Os caviares mais luxuosos do mundo que me perdoem, mas ova de tainha é fundamental! Fresca e assada no forno, frita, na brasa e até defumada - a chamada bottarga - é a mais pura essência da base da comida de inverno dos manezinhos da Ilha. Bate aquele ventinho sul no final de maio e o povo de Floripa já começa a sonhar com as tainhas que trarão as ovas mais desejadas do planeta. Hoje, estamos num dia assim por aqui. A temperatura em queda, o dia cinza, os pescadores com suas redes no plantão só aguardando o sinal dos olheiros em cima dos morros que avisam quando os cardumes se aproximam da costa. E quando a rede entra em ação, o povo enche a praia suportando com alegria o vento gelado e a gritaria festiva das gaivotas que prevêem o banquete de logo mais. E todos ficam ali aguardando e, no caso de necessidade, ajudando a puxar a rede com o tesouro capturado. Quem não tem esse privilégio, vai à peixaria no dia seguinte e se dá bem do mesmo jeito. É o meu caso.

Mas, vamos ao que interessa, três formas de fazer ovas de tainha em casa, você mesmo, sem requerer prática nem tampouco habilidade:

Assada no forno, não tem?
Pegue uma gorda ova dupla (eu disse dupla? sim, todas são. Mas a primeira vez que a tirei de dentro de uma tainha, a paulistana aqui achou que tinha sido sorteada - santa ignorância!) e tempere com sal fino e dois limões. Coloque numa forma e leve ao forno médio pré-aquecido por 20 minutos no máximo. Retire do forno e, ainda bem quente, faça um corte de ponta a ponta regando com azeite de oliva extra virgem. Para sofisticar, coloque um pouco de flor de sal triturada na hora.

Sequinha na churrasqueira

Tempere da mesma forma, mas enrole numa folha de bananeira. Se não tiver (e quem é que tem?) apele para o velho e bom papel alumínio, ele não vai te decepcionar. Coloque na grelha e deixe por lá o mesmo tempo necessário para aquela cerveja artesanal que foi ao freezer ficar no ponto. Desenrole o papel alumínio, coloque a bicha numa tábua e regue com muito limão e azeite. Coma assim, com palitinhos, amigos e cervejinha gelada. Pra quem não sabe, ova esfarela então comer diretamente na tábua vai exigir de você um pouco de destreza e equilíbrio.


Fritinha

Mané que é mané, frita. Com muito óleo, no processo de imersão mesmo. Não conta calorias. O que conta é o sabor. Nesta versão, a tainha ganha crocância e a pele que a envolve forma uma película bastante agradável ao paladar. Para aromatizar o azeite em que a ova será frita vale acrescentar uns ramos de alfavaca. Ela vai perfumar não só o prato, mas também o ambiente. E uma dica importante: antes de colocar a ova no óleo bem quente, deixe-a envolvida num pano de prato para secar bem e evitar respingos. Vire uma única vez, três minutos são suficientes de cada lado. Sirva quentinha, com limão galego ou mesmo com gomos de bergamota. O azedinho "quebra" a gordura.

E aí, vais comer ou vais ficar só de butuca, istepô?







A vida como ela é: cada filme evidencia, a seu modo, a densidade das complexas relações familiares

Konrad (Clemens Schick), Donato (Wagner Moura) e Airton (Jesuíta Barbosa) no drama de Karim Aïnouz: amor e abandono
Um é cearense, o outro iraniano. Os diretores de cinema Karin Aïnouz e Asghar Farhad mostram ao grande público seus mais recentes trabalhos: “Praia do Futuro” e “O Passado”, respectivamente. Cada um ao seu modo evidencia a densidade das complexas relações familiares. São as pedidas da vez.


“Praia do Futuro”, filme do premiado diretor cearense Karin Aïnouz (o mesmo do emblemático “Madame Satã”) de coprodução Brasil-Alemanha, chega às telonas brasileiras nesta segunda quinzena de maio já aclamado pela crítica internacional. Recebeu menções honrosas no último Festival de Berlim e ganhou elogios contundentes da Variety e Screen International, algumas das mais prestigiadas publicações do segmento de cinema no mundo.
E se você não viu e nem ouviu nada por aí sobre “Praia do Futuro”, deixo aqui minha dica: vá assistir ao filme, mas não veja o trailler antes. Simplesmente porque ele não faz jus à grandeza do trabalho de Aïnouz. Toda a adrenalina, o comportamento nervoso dos atores, a música forte e a impressão de que haverá muita ação não são refletidos no filme de fato. E isso eu, particularmente, vejo como uma vantagem. Praia do Futuro é muito mais uma história de amor e de família, de culpa, de abandono e de perdas. O roteiro impecável é do Felipe Bragança e a trilha sonora pop emociona no tempo certo, abusando do ritmo de Heroes, de David Bowie.

Destaque para a excelente fotografia - as locações na Alemanha e o cenário do litoral do Ceará são de tirar o fôlego - tendem a criar movimentos de câmera longos, com poucos cortes e que pode até parecer meio arrastado para quem está acostumado com um ritmo à Schwarzenegger, mas que cai muito bem ao estilo europeu ou brasileiro cult.
Outro adendo que faço é em relação a um pré-julgamento equivocado do filme, que desmereceu o seu bom conteúdo, sendo rotulado como filme gay. Ok, os protagonistas são gays, o filme tem cenas demasiadas de nu frontal e sexo homossexual, mas apesar do excesso desnecessário esse rótulo não é justo com a obra. O filme é bem maior que isso. O próprio Wagner Moura, na coletiva de lançamento à imprensa em São Paulo, disse “Donato é um personagem complexo, ele tem muitos elementos. Ser gay é só um deles".
Aliás, vamos à história: Donato (Wagner Moura) é um salva-vidas da Praia do Futuro, na capital cearense, destemido e um verdadeiro herói para o irmão Airton (Jesuíta Barbosa). Um dia, ele conhece seu futuro parceiro, o motociclista alemão Konrad (Clemens Schick, americano bem manjado em filmes europeus) numa situação extrema: o turista é salvo de um afogamento por Donato. Mas, seu companheiro de viagens não tem a mesma sorte. O herói é quem dá a má notícia a Konrad.

E começa aí uma paixão avassaladora entre os dois. Começa aí também o drama familiar. Airton, o irmão mais novo, é quem mais sente o abandono quando Donato foge para a Alemanha com o namorado. Anos depois, o reencontro dos irmãos reserva uma enxurrada de emoções e de reflexões. Atenção ao último terço final do filme que guarda para o espectador uma imagem sequencial de tirar o fôlego.


“Le Passe”, título original do filme de Asghar Farhadi, é dono de um enredo difícil, porém fácil de ser acompanhado. Nem o ritmo lento dos takes, nem a fala mansa dos atores quebrada por discussões familiares agudas, consegue dar a percepção real dos mais de 130 minutos do filme. Passa tão rápido quanto passam as culpas pelo passado, os temores pelo futuro e a complexidade de uma relação familiar cercada de segredos. Farhardi, que é considerado o maior diretor iraniano de todos os tempos, tentou dar ao “O Passado” o mesmo tom dos consagrados “À Procura de Elly” e “A Separação”, suas obras-primas. A maior especialidade dele é criar um universo realista e povoado por indivíduos complexos e de bom caráter que, com frequência, se agridem por dilemas cotidianos que todos nós identificamos.
Nessa história, ele fala de Ahmad (Ali Mosaffa), que após quatro anos de separação chega a Paris vindo do Teerã, a pedido de Marie (Bérénice Bejo), a sua esposa francesa, para se divorciarem legalmente. Durante a sua breve estadia, Ahmad descobre a relação conflituosa que Maria tem com a filha mais velha, Lucie. Enquanto Ahmad se esforça para tentar melhorar esse relacionamento, irá descobrir segredos bem guardados do passado de cada uma das personagens. A revelação dos segredos e dramas, pouco a pouco vai prendendo a atenção de quem acompanha a história, mas nota-se que o diretor perde a mão no foco dos personagens. Nenhum deles tem sua índole revelada plenamente, nem seus objetivos à sua exatidão, e ninguém permanece protagonista por mais de vinte minutos. Assim como em todas as famílias, é legal ver também que nem todos ali são inocentes, assim como não há quem seja apenas vítima.
Nessa engrenagem de drama familiar há um certo suspense, mas é uma pena que ele se utilize de reviravoltas forçadas e de alguns personagens monossilábicos e sem nuance, como é o caso da filha problemática e do ex-marido e também ex-deprimido. A fotografia do filme não é bonita, mas é muito bem feita, realista. Não há um take sequer que você identifique Paris, por exemplo, mas com certeza você vai se incomodar com os detalhes da casa mal pintada e da cozinha pouco organizada em que a família faz as refeições. A mesma realidade pode ser vista dura e crua na trilha. Eu não me lembro de nenhuma música do filme – na verdade nem sei se tinha – mas é marcante o aúdio do trem que passa praticamente na janela da casa da família, do barulho chato da lavadora de roupas, do motor do carro emprestado que vai buscar Ahamad no aeroporto, quando ele reencontra a mulher para acertar o divórcio e onde tudo começa.
Em cartaz:
Paradigma Cine Arte
O Passado - 2013, França/Itália, 131 minutos, elenco: Bérénice Bejo, Tahar Rahim, Ali Mosaffa
Praia do Futuro – 2014, Brasil/Alemanha, 90 minutos, elenco: Wagner Moura, Clemens Schick e Jesuíta Barbosa

Veja mais no Jornal Imagem da Ilha

terça-feira, 13 de maio de 2014

Em Floripa, almoce com as flores!




Lugarzinho aconchegante, colorido e com cheiro de manjericão fresco


Torta de limão, um clássico, para finalizar
Schiaccina de polvilho
Crepe de Salmão: rápido, leve e delicioso
Fazia um bom tempo que eu não passava por esse café da minha amiga gastrônoma Ceres Azevedo. Estes dias almocei por lá para uma reunião rápida de trabalho e tive a grata surpresa de encontrar um cardápio atraente num ambiente super astral. Esse café fica dentro de uma estufa de plantas e flores, a Verde & Cia Garden Center, na SC-401, e as mesinhas estão dispostas entre vasos de flores, temperos frescos, samambaias e frutíferas. Um charme. De entrada, a Ceres manda como mimo uma schiaccina quente de polvilho, quase transparente de tão fininha, temperada com sal e ervas. Para almoçar, várias opções leves e rápidas. Eu fui num crepe de salmão com salada verde e frutas grelhadas. Muito bom. Não deixe de tomar um chá aromático e escolher uma das muitas sobremesas do lugar, a especialidade da Ceres.
Docinhos cítricos para levar com você

quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Eu, Mamãe e os Meninos", o filme

A pedido do amigo Hermann Byron, dei meus pitacos sobre cinema para o Jornal Imagem da Ilha. É uma brincadeira séria, com impressões de quem, como você, não é um crítico profissional e nem tem a pretensão de ser, mas gosta do assunto e pode emitir uma opinião sobre. Falei sobre o filme "Eu, Mamãe e os Meninos", já assistiu? Confira abaixo ou na página do jornal www.imagemdailha.com.br

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Hoje é Dia do Malbec!


Foi num 17 de abril, mas de 1853, que um engenheiro agrônomo francês - Michel Aime Pouget -  plantou as primeiras mudas de Malbec em Mendoza. Desde então, o Malbec é a uva símbolo da Argentina, com vinhos consagrados, e a região de Mendoza, referência mundial em vitivinicultura. O que pouca gente sabe é que esse tipo de uva teve origem na França, mais precisamente na região de Cahors, ao sudoeste do País. Os primeiros vinhedos de Malbec francês foram criados ainda pelos romanos, e viveram seu auge e glória durante a Idade Média. Hoje essa irmã mais velha perdeu espaço para Mendoza, a mais nova. 

Bem, se faltava motivo para abrir um Malbec hoje e comemorar, faça um brinde a Michel Aime Pouget e delicie-se com essa bebida de um rubi púrpura inigualável.

Champagne para ler, visitar e degustar



Quem visita a região de Champagne, no nordeste da França, não imagina que por trás daquela paisagem bucólica que abriga seculares vinhedos, sofisticadas caves, berço das marcas mais luxuosas e tradicionais do mundo, discorreu um cenário de guerras sanguinárias e violentas invasões. Para se chegar ao glamour de hoje, viveu-se séculos de terror. Esse passado marcado por tantas conflagrações e tragédias é desvendado com maestria no livro "Champagne", escrito por um casal de jornalistas americanos - Don e Petie Kladstrup - apaixonados pela França e por seus vinhos.

Livro que inebria do início ao fim

Comprei esse livro pouco antes da minha viagem à região, no final de março. A ideia era entender mais o que eu veria ali, ao vivo, e as histórias por trás de cada gole degustado. Me apaixonei. Li antes, li durante a viagem, e estou relendo agora depois de visitar todos os palcos relatados com tanta emoção no livro. Minha dica é: faça o mesmo se puder, porque com história o sabor é outro.
Cada crayére que você visitar ou cada vez que você atravessar o Marne terá como referência as passagens incríveis do livro que relatam não só banhos de sangue, como também costumes da época, a forma como as pessoas viviam e se relacionavam nas comunidades, as muitas dificuldades que tiveram para fazer do champagne o vinho mais glamouroso e sofisticado do mundo.


A linguagem inebriante te convida a visitar um outro tempo. As informações são detalhadas, precisas, extratos de diálogos impensáveis. Napoleão, Luis XIV, Átila e outros grandes personagens da história da humanidade tem sua ligação forte com essa região rica e vocacionada. E bebiam muito. Fatos pitorescos também são narrados, como a predileção que o Chanceler de Ferro alemão Otto Von Bismarck tinha por essa bebida, que o ajudava a “livrá-lo dos ventos”, vítima que era de flatulência crônica. Há ainda acontecimentos curiosos da vida mundana envolvendo o champanhe ou as aventuras do ousado e inteligente Charles-Camille Heidsick.



O livro também descreve passagens apaixonantes dos grandes visionários e empreendedores da região como Nicole-Barbe, a viúva Clicquot; Jean Pierre Moët, da Moët&Chandon; Don Pérignon; Louise Pommery, a madame Pomery; e muitos outros ícones dos tempos de guerra e perlage.

Um livro para ser lido e degustado, interpretado in loco. Todo gole de champagne, daqui pra frente, terá para mim um outro sabor.



“Lembrem-se cavalheiros, não é só pela França que estamos lutando, é pela Champagne também.”
Discurso de Winston Churchill durante a Segunda Grande Guerra

Livro: Champagne: Como o mais sofisticado dos vinhos venceu a guerra e os tempos difíceis
Autores: Don e Petie Kladstrup
Editora: Zahar
Preço: + ou - R$ 50,00






quinta-feira, 10 de abril de 2014

A boa da salada

Muita gente torce o nariz para salada. E se isso acontece, me desculpem, mas está faltando criatividade. Salada não precisa ser aquela coisa verde gelada e molhada, com alguns tomates mal cortados cheirando a vinagre. Não! Para mim, salada tem que ser um mix de aromas, de cores e de texturas. É preciso brincar com ingredientes que te deem um azedinho e aí você combina com um adocicado. Coloca uma folha tenra junto de um castanha crocante. Pode ainda brincar com o quente e o frio regando ingredientes frescos e em temperatura ambiente com um molho quentinho. Por isso adorei esse livro "Salad of the Day", minha última aquisição na Williams-Sonoma de NY. Ele traz 365 receitas incríveis, uma para cada dia do ano, todas factíveis e com ingredientes possíveis - porque não tem nada pior que livro de receita importado que fala de processos e alimentos que você não faz a mínima ideia do que se trata.

Para deixar um gostinho, vou burlar a lei do direito autoral americano e reproduzir aqui uma receita legal, que inclusive é a planejada para o dia de hoje, 10 de abril.


SALADA DE LULA E FEIJÃO BRANCO
(serve 4 pessoas)

Sal e pimenta moída na hora
60ml de vinagre de vinho branco
3 colheres de sopa de suco de limão
1 colher de sopa de alho picado
125ml de azeite de oliva
500g de lula limpa, cortada em rodelas e tentáculos
470g de feijão branco cozido e escorrido
2 pimentões vermelhos tostados e cortados em tiras
125g de cebola roxa cortada finamente
2 colheres de sopa de alcaparras
60g de azeitonas verdes sem caroço e fatiadas
salsinha fresca para enfeitar

Numa panela grande, coloque 4 litros de água com sal para ferver. Deixe reservado uma tigela com água gelada.
Numa outra tigela, misture o vinagre, o suco de limáo, o alho, sal e pimenta e deixe marinar por 5 minutos. Adicione óleo de oliva aos poucos, misturando constantemente até que o molho emulsione.
Coloque a lula na panela com água fervendo e cozinhe até ficar ao dente. Isso vai levar aproximadamente 1 minuto. Escorra a lula e coloque imediatamente na água gelada para cortar o cozimento. Depois seque todas as rodelas e tentáculos. Reserve.
Incorpore a lula, os feijões, o pimentão, a cebola, as alcaparras, as azeitonas ao molho e misture muito bem. Tampe e refrigere por pelo menos 30 minutos.
Antes de servir, corrija o sal e demais temperos. Divida em pratos individuais e enfeite com as folhas de salsinha e sirva.

Bom apetite!






Veramente bello!

Ironia e inteligência ácida enriquecem a personalidade de Jep













Fui assistir ao "La Grande Bellezza", de Paolo Sorrentino, drama italiano que ganhou o Oscar como melhor filme estrangeiro. E gostei muito do que vi. Não sei se porque fui sem ter criado expectativas e desarmada de qualquer crítica que havia lido, mas a verdade é que o filme me fez bem. Adorei passear com o movimento da câmera por paisagens de tirar o fôlego, a plasticidade toda é estarrecedora. Deu vontade de voltar a Roma. Também gostei muito do humor irônico e ácido de Jep Gambardella, escritor de um livro só e que ao completar 65 anos já não tem papas na língua ao mesmo tempo em que vive o dissabor da decadência. O excelente ator Toni Sevillo me rendeu risadas extra roteiro. Isso porque ele é muito parecido, no humor e na fisionomia com um grande amigo italiano, o Mimo Domenico Calabria. Há passagens engraçadíssimas no filme quando se revela uma alta sociedade de Roma brega e pseudo-intelectual. Destaque também para a riqueza do texto, que tem como coadjuvante citações de Dostoiévski, Breton e Flaubert, entre outros autores universais. Trilha sonora envolvente, vai de belos cantos gregorianos a baladas com Pa Panamericano. Ponto negativo? Sim. Muito longo. São 142 minutos de rara beleza e acidez, mas que poderiam ser 80, 100, 110 estourando, e sem perder qualquer conteúdo relevante.
Jep Gambardella - o nosso amigo Mimo - tem uma cobertura de frente para o Coliseu. Chato, né?



terça-feira, 8 de abril de 2014

Doce de leite de família



Consistência e sabor num doce único
Dizem que argentinos e mineiros brigam até os dias de hoje pela patente do doce de leite. O que eu faço em casa tem raiz gaúcha e é pra lá de bom. A receita é de família, mas transmitida ao longo das gerações de forma, digamos assim, meio enviesada. Na verdade, recebi a atribuição de manter a receita na família Bitencourt da minha sogra (Eli, Porto Alegre/RS), que por sua vez  já tinha recebido a incumbência da sogra dela (Nair, Jaguari/RS). Ou seja, uma receita de família, não de mãe para filha, mas de sogra para nora.



O doce, em seis tempos de preparo, com 30 min em cada etapa
Caminhos tortos à parte, o doce é muito bom e a receita muitíssimo simples. Você vai precisar de uma boa panela, alta e larga, feita de alumínio ou ferro bem grosso. Antes de ligar o fogo - e essa parte é bem importante - coloque 4 litros de leite e 1 kg de açúcar e mexa muito bem. De 3 a 5 minutos, até que o açúcar esteja totalmente dissolvido. Esse é o segredo. Coloque o panelão em fogo baixo e deixe uma escumadeira de metal dentro dele para evitar que o leite suba e vaze no seu fogão. Esqueça-o por umas duas horas aproximadamente (sim, você leu direito, não precisa ficar mexendo o tempo todo como a Tia Anastácia fazia). Somente na última meia hora, peque uma colher de pau, daquelas com a base reta (tipo raspa-tudo) e mexa o doce lentamente, sempre tocando o fundo da panela. Essa mexida final é que vai dar um brilho ao doce e deixá-lo mais caramelado e homogêneo. Desligue o fogo e coloque o doce de leite num refratário transparente. Por fim, avise a turma que é preciso esperar esfriar para aproveitar ao máximo todo o sabor e consistência desse doce único. Nem sempre te obedecem, que o diga meu marido Róger Bitencourt para quem faço esse doce praticamente toda semana. Última dica: leiloe a panela porque raspá-la é para os privilegiados.